
30.1.10
De madrugada

5.1.10
Pré despedida
Pode ser algum tipo de proteção tardia ou um medo irracional de qualquer coisa que nunca acontecerá. Eu prefiro, eu prefiro assim. Longe, não perto. Sem toques, poucas palavras, nenhuma expectativa, nenhum encontro ou falta.
Quando se acabou, há mais de ano, depois que o costume do não ter se sedimenta, não dá para, de uma hora para outra fingir amizades que não existem e provavelmente, nunca irão existir a não ser na distância.
Qualquer toque incomoda esse que se sente de fora sem que isso o entristeça mais. Aconteceu. Em um intervalo de muitos meses, aconteceu de acabar, aconteceu de se perder, aconteceu de não precisar.Aconteceu de você estar sentindo falta de qualquer coisa abstrata e de eu sentir falta de alguma coisa que não sei precisar ou localizar, espaço temporalmente. E que há muito, você ainda é você mas eu já não sou mais eu. O eu menos muitas das partes ruins mas que não consegue mais se compartilhar com o que foi e não com o que é.
Nós fomos. Segui durante muito tempo sendo um nós que não existia, respirando um você que não atendia, que não queria. Hoje sou eu, eu e o que acho de melhor, pra mim. Ainda que, tristemente, muitas (na maioria) das vezes, não inclua o você.
Um beijo, desculpa a brutalidade, a gente se fala.
30.12.09
Foi.
Na verdade, o processo de esquecimento só se torna um processo, de fato, quando você toma consciência dele. Quando ele não é doloroso não se procura pensar. Quando um término ou a vontade de se esquecer são coisas que acontecem de vontade livre, você simplesmente esquece.
Claro, isso não acontece da noite para o dia, mas primeiro procura-se não pensar e mais do que tudo, para conseguir tal coisa, ocupar-se em todos os segundos do dia. Sim, sempre existiram horas como as do banho ou o primeiro momento em que se deita a cabeça no travesseiro mas com esforço muito grande pode-se entrar dentro de si e pensar em outras coisas.
Talvez, só seja permitido um certo número de lágrimas por pessoa. Pessoas pelas quais se chorou muito, quando acabam, às vezes, não há mais choro. Só acabou. A primeira coisa a desaparecer, é o cheiro. O cheiro do outro, às vezes, o cheiro em conjunto que um casal guarda. Isso é, também, a coisa mais fácil de vir à tona. Pode não ser um cheiro pessoal, mas um perfume, um sabonete, o cheiro de roupa lavada. Depois somem as referencias. Perdem-se conversas, esquece-se o motivo de brigas, tudo fica embaçado nesse lugar traidor de memória. Logo depois, as sensações.
No começo, parece-nos ainda possível sentirmos, mesmo que sozinhos, um gosto de beijo, a sensação de um abraço, de um toque que nos agradava especialmente, o que carregávamos por dentro quando o outro fazia alguma coisa da qual nos lembramos com carinho particular. Aos poucos isso some e quando some, é pra não voltar. Não se podem fabricar sensações que somente uma pessoa era capaz de inspirar, a não ser, as sensações negativas. As boas, nunca ficam.
Embaralham-se números de telefone, e por último, esquecem-se as formas corporais, o rosto, a expressão, a voz. Tudo se torna manchado e quase como se não houvesse existido. A falta de intimidade e convivência traz um nada, transformam o que era em nada. Neste momento, fica mais fácil duvidar do que foi se foi. E acreditar que não era para ser.
Fica claro então o fim. Quando não se guarda nada, quando esquecer não é tarefa da qual se ocupa todos os dias, mas simplesmente acontece, não há amor, constatamos. A única prova de que, talvez, aquilo tenha sido real é quando, de repente, um cheiro nos assalta num momento inesperado e com surpresa lembramos de que sim, já havia sentido aquele cheiro antes e de que, ele deveria, significou alguma coisa em algum momento, o qual não conseguimos precisar muito bem.
Um amor que se esquece talvez nunca tenha sido amor.
29.12.09
19.12.09
Ao passado
Continuo guardando afastamento à duras penas. Talvez nem tanto. Gosto da sensação de que nada da minha vida é conhecido, pelo menos, nada que eu mesma não deixe se entrever. Mesmo quando eu pego o telefone, ela só sabe de meias palavras. Quase nada. Na verdade, nada.
O telefonema, foi difícil. Eu queria falar e falei, meio sem parar. Ela queria falar e não sabia o que, em comum, só a sensação de que era muito tempo sem nos ouvirmos. Tenho a terrível sensação de que não mais podemos passar disso. Contatos telefônicos e à distância. Somente. Eu não quero visões. A distância já me traz de volta em sensações e sonhos aquilo que enterrei mas nunca esqueci. O cabelo dela na minha cara enquanto dormíamos, eu sempre agarrada àquele corpo como se sem ele não houvesse equilíbrio, como se assim assegurasse a minha propriedade sobre o eu- físico dela.
Ela me faz querer viver e reviver. Delírios se tornam sinestésicos. A sensação tátil como a mais palpável. Acima disso, a minha vontade de morte é muito maior. Muito maior por ser ela (e isto que é e será eternamente o entre- nós) quem me fez morrer metaforicamente tantas vezes no durante e depois, por que foi ela quem me quase fez morrer de verdade mais de uma vez. Hoje, não morreria por ela mas pensar nela, é pensar em morrer, é lembrar de querer morrer. É pensar no que fazer diante da minha falta de opções, do desespero, do nada.
Então lembro menos, penso menos, morro menos
e durmo.
6.11.09
Auf den Briefen
BACHMANN, Ingeborg in Malina, São Paulo:Siciliano, 1993
26.10.09
Ainda há uma parte dela por aqui. A última, a que não dá para esconder porque está lá, toda vez que abro meu armário, ela está ali. Tem um casaco dela comigo, um casaco que eu pedi a ela da última vez em que estive na casa dela. Era o casaco que eu usava para dormir no breve tempo em que moramos juntas. Quando eu o trouxe para cá, ele tinha cheiro de roupa lavada, junto com o cheiro dela e do sabonete líquido que eu havia deixado na casa dela, com o qual tomei banho da última vez que lá estive.
Quando voltei para casa (quando peguei este casaco já estávamos separadas), dormi e usava-o em casa durante dias e mais dias. Demorei mais de uma semana para lavá-lo. Usava-o mesmo quando não sentia frio. Desta forma era como se ainda estivessemos juntas. Me sentia como se estivesse eternamente abraçada por ela, o que era em si um conforto já que a * verdadeira só me afastava cada vez mais e a distância entre nós crescia exponencialmente. Hoje em dia, o cheiro que dele exala é todo meu, todo eu, sozinha.
Sinceramente, erramos demais, acho que no fim fizemos tudo que podíamos para nos magoarmos cada vez mais, nos esgotamos em todas as possibilidades possíveis.
Ela diz que me perdoôu mas nao o fez. Uma traição, seja ela de qualquer tipo doi como poucas coisas na vida. Quando se passa por isso, a pessoa precisa de um tempo para ela mesma para decidir se consegue viver com aquilo. Se ela decide que sim, para seu próprio bem, do parceiro e do relacionamento, isto deve ser esquecido e nunca mais deve-se tocar neste assunto. Jogar uma traição na cara de alguém, como sinal de desamor, em certos casos parece crueldade demais.
Nas vezes em que fui traída e soube disso, nunca sufoquei o outro em culpas. Sempre cheguei a um ponto de questionamento em que me perguntava o que eu havia feito de errado, porque a necessidade do outro? Havia essa necessidade do outro ou fora somente um deslize no qual o pensamento ficara momentaneamente suspenso?
Apesar de eu ter peço perdão, decidi que não devo ter que ouvir "desculpe-me" para o resto da vida, desculpas provenientes dos muitos erros que o meu único ocasionou.
* tentou me segurar com as duas mãos, me amarrar ao pé da mesa, fazer de mim a mulherzinha - troféu perfeita : bonita e inteligente, para que todos pudessem me admirar. Numa frouxidão, eu me soltei e não encontrei o caminho de volta. As vezes chego a duvidar que estive realmente lá. Que tive um lar em Niterói, que consegui fazê-la feliz sendo esta Mayra que sou, tão longe de uma mitologia como sou.
(...)